Carta a um coração distante

O melhor dia da semana é o dia cinza. Pode ser dia útil ou final de semana, não importa. Tudo parece ser mais cru, monocromático, simples, real. Mas há um porém: as pessoas que vivem estes dias acabam virando potes-de-açúcar sem tampa. Se tornam heremitas por falta de opção, acreditando que estes tais dias cinzas são importantes para introspecção, alguns têm coragem chamar de dias IN (in casa, inbaixo de cobertas com o controle remoto da televisão à mão, intragáveis, insuportáveis.), o que é muita pretensão e banalização junto. Pessoas-potes pegam um livro, prontas para infiltrar cultura cérebro adentro e absorver estórias das quais sequer presenciaram, sem se darem por conta que um dia cinza vai muito além de cultura por ocasião.

Pessoas-potes não gostam de companhia nestes dias, e acreditam em quaisquer besteiras que lhes contam. “Não posso porque tá chovendo” é o bordão mais usado pelas pessoas mais ousadas. Estas são apenas cristais de açúcar espalhados em uma mesa úmida. Tal qual o período da noite, as distâncias são maiores ainda, o medo de um dia sem o astro-rei é quase congênito como se alguém tivesse ligado uma lâmpada fluorescente no céu com uma camada de tule e gaze pra não existir iluminação direta. Eu não entendo, realmente não entendo porque estas pessoas acham que dias cinzas é sinônimo de solidão. Será que sou eu quem está com a visão distorcida da realidade?... Não, não pode ser. Mesmo que cada pessoa tenha uma realidade que pertença somente à si e que relações interpessoais façam parte do imaginário coletivo, essa teoria é inaceitável, incabível.

Meus dias cinzas são mais do que dias de céu encoberto e sol escondido. As cores vibram à meia-luz, os mais variados aromas impregnam as narinas sutilmente, toda comida tem um sabor distinto, os decibéis extrapolam o limite e as texturas são mais exatas ainda que esteja tocando um pedaço de vidro. Cheiro de concreto molhado não necessariamente me agrada, mas o cheiro da chuva... Ah! Aquele cheirinho de chuva que tantas lembranças e expectativas traz. É um bem maior, uma ausência física suprida seja ao observar o lado de fora quanto sentir as poças d'água nos pés, os pingos nos ombros, o cheiro característico de dia chuvoso, o gosto de cada gota em uma gargalhada contra o vento.

Assim como eu observo, a chuva também me observa. E crava na minha pele, sempre que possível, uma falta imaginária de distância como se fosse teu sorriso, um afago trazido até mim via air shipping. Um cheiro no cangote, um beijo delicado no ombro. Um olhar de reprovação, uma mordida no lábio. Um gemido fraco que suplica por carinho, “um riso incontido” na sequência. Respiração pesada, pálpebras cerradas. Dormir de conchinha com quem se gosta e, até, um eventual empurrão que vem junto com uma tentativa – frustrada – de roubar o cobertor.

Tudo isso tem um sentido diferente por causa do esforço feito para diminuir a distância, ainda que não saibamos o que o tempo nos reserva. Tua presença longínqua se reafirma nestes dias cinzas. Em alguma hora de algum dia, tua ausência esvaece e faz tudo em meu mundo ficar melhor, mais belo.

Assim como saber que o que faz o deserto ser lindo é saber que ele esconde um poço n'algum lugar, o que faz meus dias cinzas é pura e simplesmente a tua companhia mesmo a um oceano de distância.


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