Fração de segundo

O tempo passa e todas as coisas continuam em seus devidos lugares. O espelho já não mais reflete a suposta alegria que antes era vista nas feições daqueles que por ali passavam... Lindos, elegantes, monocromáticos. Onde antes existiu recordações de frações de segundo emolduradas, hoje em dia dá lugar a vazios demasiadamente perturbadores que parecem estar intactos na memória de uns, mas são irrelevantes na memória de outros.

De tempos em tempos, frações de segundo são emolduradas em mármore, madeia ou ouro, com a finalidade de manter tais momentos vivos, deixando apenas o tempo se encarregar de levar as pessoas que um dia vivenciaram tais momentos para um lugar possivelmente melhor. Fotografias preservam a lembrança destas pessoas para os que ficam, habilmente iludindo seus observadores quando a saudade se torna quase que insuportável.

Quando uma daquelas molduras penduradas na parede da nossa vida se faz notar, pode nos remeter à infância que nunca tivemos, assim como pode nos envelhecer e trazer de volta à tona sorrisos que nunca foram nossos e nos fazer derramar lágrimas que jamais cogitaríamos derramar. Mas principalmente, nos faz recordar daquele momento em particular da nossa própria maneira, e entender a razão pela qual todas as molduras parecem intocadas pelo tempo.

A memória das pessoas naquelas fotografias continuam vivas enquanto são contempladas por nós, ou por aqueles que buscam alguma breve mas ainda assim imediata e vaga lembrança do que se passou. Como qualquer outra parede, esta desabará um dia, levanto muitas outras frações de segundo consigo que ficaram por anos a fio resguardadas dos olhos curiosos dos observadores mais detalhistas, nossos pequenos segundos secretos. Parede esta que só está de pé enquanto estamos aqui, vivos e que aparentemente ninguém consegue derrubar. Apesar de só se manter firme enquanto estamos presentes, em toda sua simplória magnitude são estes segundos que nos dá o que precisamos dia após dia: recordações de momentos, erros que cometemos e, consequentemente, lições que aprendemos.

Parede esta que somos nós, pessoas comuns que têm como a fundação vital as lembranças de momentos próprios, alheios, compartilhados e solitários emoldurados em sorrisos, lágrimas, palavras e gestos a cada fração de segundo.


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