Imaginário

Quatro cantos. Linhas imaginárias ou paredes metodicamente texturizadas. Pouco importa as goteiras que implicam com o assoalho que perdeu a conta de quantos passos segurou em anos, e agora está lá, largado às traças. O homem não se importa. Vidraças quebradas que empurram a tímida sinfonia do vento para dentro daquele imenso salão onde a porta, que não tem maçaneta, repousa tranquila contra a parede sem ser importunada nem sabe que é a próxima a ir para a lareira. A madeira podre dos degraus impede o acesso ao segundo andar. O homem nã se importa com a falta do teto, nem com as goteiras.

Proteção dúbia para diferentes fúrias e perigos em uma arquitetura hoje desforme que salva almas de merecidos castigos. O homem não vê as coisas como são. Quieto perto da lareira que agora incendeia a porta que repousava contra a parede, saboreando sua caneca de vinho, ele observa os pássaros que fazem das poças criadas pelas goteiras suas fontes. Um punhado de jornais precisamente organizados no chão são sua cama, cama de rei como ele diria. A velha panela com comida enlatada estragada é seu banquete. Ele não espera companhia, mas as outras duas canecas estão ali esperando pacientemente serem usadas.

O vento e sua sinfonia formam a orquestra. E a música inicia novamente e, logo que ele levanta para quebrar mais alguns pedaços da porta, o homem sente suas pernas serem abraçadas por pequenas formas de braços e mãos. O sorriso que espreita da porta da frente antes de ser fechada, ilumina como um lustre de cristais, e o lembra que "lar é onde o coração está", e seu coração está naquele pequeno abraço e naquele aconchegante sorriso.

E então, com a vista perfeita e os convidados à mesa, o homem dá início Baile de Inverno em uma fria noite de primavera.


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