(In)verso

A fotografia retrata a honra da tradição sendo passada de pai para filha. O colo guardo na lembrança remota da memória falha daqueles tempos que não são tão tempos assim, mas as alfinetadas de saudade são constantes e não me deixam esquecer que tanto o colo quanto o velho fazem falta. Fui instruída a saborear o chimarrão, não a prepará-lo mas como sou atrevida, resolvi me dar uma lição.

No dia de hoje comemoro meu primeiro chimarrão. Pode não ter ficado uma bebida dos deuses, mas também não me saí tão mal assim. O velho ficaria orgulhoso, apesar de um pouco irritado por causa da bomba que insiste em não se ajeitar e entupir. Parece certo de que a recompensa por essa pequena vitória seria um sorriso e um colo e um pequeno pedaço de mim ficou esperando por isso mas quando dei por mim, estavam o chimarrão pronto, a térmica, Rilke e suas cartas a um jovem poeta, uma carteira de cigarros e eu, fitando um prato com migalhas de bolo de milho que formavam acidentalmente a letra "U".

Então, me dei conta que preciso parar de esperar por esses colos. Eles já estiveram lá e sempre estarão, ainda que a parte física seja de ausências. Ao observar a foto com cuidado e tentando um desapego ainda que impossivelmente indolor, o anseio de ter aquele colo novamente deu lugar a vontade de passar adiante o que me ensinou o velho, com tanto carinho e paciência. Vontade de ser o colo, de ser as mãos da segurança sem segurar, de ser a ternura do olhar.

De ser, somente. E vibrar silenciosamente com o primeiro ronco do primeiro chimarrão junto com quem toma conta do colo.


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