Preto não é cor e luz não é branca

Tratava-se de um papel com palavras rebuscadas, incompreensíveis às vezes. Dona Amália revirava o papel de um lado a outro, confusão instaurada em seus olhos. Deixei-a com seu desassossego e sua afilhada na cozinha e direcionei-me até a sala, analisando o cômodo em seus mínimos detalhes. Fiquei estarrecida ao perceber a infinita quantidade de bibelôs de porcelana irritantemente organizados por ordem de tamanho - como se não bastasse, organizados também em ordem cromática – na prateleira de mogno que fazia a volta completa nas paredes daquela sala. A sensação de estar dentro de um arco-íris quebrável definitivamente estava longe de ser a melhor mas procurei não deixar isso transparecer quando avistei a dona da casa caminhando pelo corredor em minha direção. Lembrei-me de todas as vezes que estive na casa quando era criança, e todas as vezes que minhas mãos chegaram a formigar de vontade de derrubar pelo menos um daqueles bibelôs. Esqueci por completo o motivo da minha visita ao relembrar todo o esforço para ficar sozinha naquela sala, sem supervisão de um adulto. Agora lá estava eu, a trabalho, sem supervisão de nenhum adulto além da minha própria, ou seja, por descargo de consciência que não tinha mais cinco anos, mantive minhas mãos nas costas.

Com a penumbra do corredor, só consegui enxergar que ela ainda estava meio perturbada quando chegou na sala. Seu rosto iluminou, parecia estar feliz por seus bibelôs não terem sofrido nenhum tipo de atentado nas mãos da criança mais peralta da rua que hoje, vinte anos depois, não era mais assim tão peralta. Dona Amália riu, talvez tenha se lembrado dessas tantas vezes que minhas mãozinhas coçaram para causar o maior alvoroço naquela sala, e fez com que eu a acompanhasse até o outro lado da sala para nos sentarmos no sofá. Contou-me sobre suas viagens para a Europa e Ásia, e sobre seu fascínio pela Índia. Não pude deixar de pensar na novela das oito e ri baixinho, ironizando a ironia de quem sempre disse que a moda da massa não deve ser seguida. Lembranças, lembranças e negócios a parte, resolvemos entrar no mérito da minha ida até lá.

- Querida, você sabe que os indianos adoram cor, não sabe?

Dona Amália agora folheava o mostruário de cores com maestria, me deixando um pouco tonta. Mostrava cores aqui e acolá, colocava o pequeno livro contra a parede e olhava maravilhada quando estava satisfeita ou parecendo que haviam jogado um holofote ligado em sua direção depois de ter dilatado as pupilas quando, de fato, a cor doía nos olhos.

- Vó! Vovó! Essa côi é feia. - Nerissa, sua bisneta, entrou correndo na sala esparramando um resto de miojo do potinho por todo o carpete. - Pega um ósa! Ósa é bonita, côi de moxinha. E pêto, vó! Pêto pá ficá cheio de gamur.

Peguei a Dona Amália de surpresa, e morro de orgulho por isso porque no meu tempo, não tinha vizinha mais carrancuda do que ela. Cara, a coroa quase pirou quando viu aquele monte de massa marcar caminho no tapete que tava com cheirinho de limpo, mas se derreteu quando a guriazinha disse que rosa é cor de mocinha e que a “paiede ósa vai xumi casruga da vó”. Quase estourei rindo, tu não tem noção! Só não estourei porque, ao ver a cara dela quando notou o tapete manchado de molho de tomate, fiquei com medo de morrer de rir e que ela é quem fosse puxar meu pé no Além. Fiquei sabendo uns dias depois que foram lá para fazer a temática indiana e que, na hora de começar, ela mudou de ideia porque a bisneta a convenceu que “Ósa e pêto é bunito zunto, fica xisgue no útimo degau e é puio gamur.”

'Tão tá, né!


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