No mesmo lugar (inacabado)

Bati à porta. Esperei o mordomo me atender e, ao contrário do esperado, foi o próprio Diabo quem me atendeu. Com tamanha humildade, o exato oposto do que eu esperava encontrar em um lugar como aquele, ele me fitou surpreso. Aquele olhar atravessava meu ser, e eu não estava nem um pouco incomodada. Talvez a surpresa dele fosse ainda maior do que a minha, já que era óbvio que não deveria estar lá... Pelo menos, não ainda. Sabe-se lá aonde a vida ainda há de me levar, mas de uma coisa tenho certeza: não entrei naquele lugar por ter sido o primeiro abrigo que surgiu em meio à tempestade. A escolha foi minuciosa ao longo do caminho.

Ele deu um passo para trás e escancarou a porta para que eu pudesse passar. Não consegui nem hesitar, minhas pernas não responderam aos comandos neurológicos para ficarem paradas. Entrei, e entrei com o pé esquerdo. Já que era pra dar errado, que desse errado logo de início. É aquela velha história, “já que ta no inferno, abraça o Diabo”. Se existe alguma razão para ter lembrado de tal dito popular, não sei, mas abri meus braços e aguardei alguns instantes. O olhar em minha direção havia passado de surpresa para preocupação, e eu me deleitava por dentro. Ele retribuiu os braços abertos timidamente, coisa que não se espera de uma besta como aquela. A aura cor de fogo que emanava daquele ser era tão gélida quanto um iceberg. Separamos nossos corpos, e eu sorri. Esperava ao menos um sorriso de retribuição, mas ao invés disso, mais preocupação no olhar.

Ele me deu as costas. Saiu andando e, de repente, não estava mais lá. Não o vi passando por nenhuma porta, talvez estivesse distraída demais com tamanha ironia. Por que o Diabo estaria tão preocupado com a minha falta de fé? Ele deveria estar dando pulos de alegria por receber a visita de uma cética. Ou, talvez, um tanto puto por eu ser apenas mais uma no meio de tantos que já deviam ter dado as caras por lá. O fato é que a situação toda, além de irônica, foi um tanto intrigante. Fiquei parada observando a ante sala até que um espectro veio e me mandou segui-lo.

Fui ordenada para ficar à vontade, e assim o fiz. Ofereceram-me o melhor quarto, com a melhor vista para o mar. Sim, o Diabo vive bem melhor do que se imagina. Nada de labaredas, rios de lava e calor exaustivo. Senti como se estivesse em uma hospedaria, já que recebi instruções sobre como funciona a piscina interna, e sobre os horários do serviço de camareira e serviço de quarto caso desejasse ficar em meus aposentos. Eu ri. Assim que o espectro saiu, decidi desbravar aquele lugar como se não houvesse amanhã e, de todo, não estava errada. Entrei em uma ala um tanto curiosa para uma casa que tinha aquele ser como dono: a Ala dos Catorze. Quando ouvi a porta se fechar atrás de mim – a porta não estava lá antes, não que eu houvesse percebido -, pensei com meus botões, “Porra, devia ter pedido tele-entrega de pizza”.

Quando dei por mim, estava em um corredor largo o suficiente para caber três ônibus e sobrar um pouco de espaço. O piso era formado por três carreiras de lajotas: transparentes ao centro, branca à direita e preta à esquerda. Assim que pensei em pisar na lajota transparente, no maior estilo Shakespeareano “quando não se sabe para onde está indo, qualquer lugar servirá”, fui surpreendida por um papel surgindo no chão à minha frente. Nele dizia que equilíbrio era necessário em cada passo para o (meu) regresso. Julguei (de maneira errônea) que esse “equilíbrio” era me manter em apenas uma cor de lajota, qual fosse a que eu escolhesse antes de pisar.

Dei o primeiro passo em direção às lajotas transparentes (nada melhor do que ficar em cima do muro quando não se tem certeza) e algo me disse que, de fato, talvez não houvesse amanhã. A lajota mudou de cor, e em um piscar de olhos me vi em um corredor completamente escuro. Olhei por cima do ombro, para tentar perceber alguma porta e, um tanto chocada, me vi antes de pisar na lajota então transparente e com o papel na mão. Tornei a fitar o longo corredor à minha frente e, ao fundo, um par de olhos vermelhos me observava. Dei o primeiro passo, e pareceu ser o primeiro de muitos por vir.

Minhas roupas deram lugar à minha pele. Estava nua em pelo e coberta de cortes abertos. Outro papel apareceu em minhas mãos, e nele dizia que para curar aquelas feridas eu precisava transcender. Pensei, mais uma vez, com meus botões. Quando se transcende do inferno, para onde se vai? Purgatório? Pouco provável, mas aparentemente eu estava prestes a descobrir, se tivesse sorte. Dei mais alguns passos e lâmpadas dicróicas ligaram-se automaticamente, iluminando algumas pinturas. Contei cada foco de luz antes de dar mais algum passo, eram sete deles. Respirei fundo e me arrependi amargamente logo em seguida, pois todas as feridas começaram a latejar, parecia que eu havia mergulhado em uma piscina de álcool com sal.

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